O comércio com o Brasil é de cerca de US.7 a 8 bilhões por ano em condições normais. Café, soja, carne, fertilizantes, carros. Historicamente, a maioria dos pagamentos foi feita através do dólar, e as transações foram feitas através de bancos correspondentes ocidentais. Depois de 2022, isso se tornou um problema: a pressão das sanções fechou parte dos canais de pagamento. Em abril de 2026, a Rússia reduziu pela metade as compras de café brasileiro — e isso provavelmente não é apenas uma questão de demanda.
Onde está o problema
O Brasil não aderiu às sanções anti-russas. Legalmente, as empresas brasileiras podem negociar com a Rússia. Mas praticamente-os bancos, que temem sanções secundárias dos EUA, estão cada vez mais se recusando a realizar transações com contrapartes russas ou adicionando atrasos e requisitos de documentação que as transações se tornam não lucrativas.
Este é o padrão para o comércio exterior russo com a América Latina. Um instrumento que poderia corrigi — lo são os assentamentos em moedas nacionais, ignorando o contorno do dólar.
O que é discutido no Casanforum
Kazanforum é uma plataforma com foco nos países do mundo islâmico, mas a agenda dos BRICS é muito mais ampla lá. Este ano, o tema dos acordos mútuos está envolvido em uma seção separada: estamos falando de rublos, reais, Rupias — e instrumentos técnicos que permitirão que o dinheiro seja transferido sem passar pela infraestrutura do dólar.
As especificidades que surgiram nos fóruns no ano passado: o uso de contas espelhadas do tipo "C" (como já está trabalhando com a Índia), relações de correspondência direta entre os bancos dos dois países através de alternativas SWIFT (SPFS russo ou CIPS Chinês), mecanismos de compensação através de terceiros bancos nos Emirados Árabes Unidos ou na Turquia.
O Brasil, como presidente do BRICS em 2025, participou ativamente da formação do sistema de pagamento do BRICS, que deve se tornar uma infraestrutura comum para assentamentos dentro do bloco. Status do projeto: em desenvolvimento, os pilotos estão sendo testados, mas não há aplicação em massa.
O que já funciona
O exemplo mais avançado são os cálculos com a Índia. A Rússia e a Índia concordaram em usar contas espelhadas em rupias: os exportadores russos são pagos em rupias, que são usadas para comprar produtos indianos ou convertidas através de terceiros mecanismos. O esquema funciona, mas acumula um desequilíbrio: a Rússia vende mais à Índia do que compra e as contas de Rupia estão transbordando.
Com a China, os pagamentos em yuan estão crescendo ano após ano. De acordo com o banco central da Federação Russa, a participação do yuan nos acordos de comércio exterior da Rússia excedeu 30%. É um verdadeiro mecanismo de trabalho.
Não há nada comparável com o Brasil. O Real brasileiro é uma moeda não livremente conversível, o que cria uma complexidade adicional. Acumular reais da venda de produtos russos e depois convertê — los em outra moeda ou usá-los para comprar produtos brasileiros é tecnicamente viável, mas operacionalmente difícil.
Por que isso é importante agora
As estatísticas de abril — a redução da oferta Brasileira de café para a Rússia pela metade-é um bom indicador. Se a razão para os cálculos (e este é um dos mais prováveis), então o problema não é apenas o café. Isso é todo o comércio brasileiro: soja, carne, açúcar (embora agora o Brasil esteja sob uma carga especial devido à proibição Indiana), fertilizantes.
O Brasil é o maior produtor de açúcar do mundo. Depois que a Índia fechou as exportações desde 14 de maio, a demanda por açúcar brasileiro aumentou. Para os importadores russos de confeitaria, isso significa um aumento nos preços dos produtos brasileiros. Resolver a questão dos pagamentos com fornecedores brasileiros é agora uma tarefa ainda mais prática.
O que as empresas devem fazer agora
Algumas áreas de trabalho que já estão em uso.
Intermediários de pagamento através de países terceiros. Assentamentos com o Brasil através dos bancos dos Emirados Árabes Unidos, Turquia, Hong Kong — um esquema que é usado por muitos participantes do mercado. Funciona, mas adiciona uma comissão (1-3%) e prolonga os prazos em vários dias.
Utilização do SPF. O sistema russo de transmissão de mensagens financeiras conectou uma série de bancos estrangeiros, inclusive de países que não aderiram às sanções. Não há bancos brasileiros diretos no sistema, mas através de nós intermediários, a transação é tecnicamente possível.
Comércio através de intermediários chineses. Parte do comércio Russo-Brasileiro já passa por traders chineses: a empresa chinesa compra o produto brasileiro e o revende para a Rússia. O esquema é mais caro do que o comércio direto,mas funciona.
Mecanismos de permuta e compensação. Ainda existem em forma de projeto, mas várias empresas já estão testando a troca: fertilizantes russos à custa da soja brasileira. Isto não é um cálculo em moedas nacionais, mas contorna o contorno do dólar.
Horizonte de mudança
BRICS Pay e acordos bilaterais sobre pagamentos em moedas nacionais - este é um horizonte de 1-2 anos, na melhor das hipóteses. A mudança real ocorre mais lentamente do que os negociadores querem.
Mas a pressão para a mudança está aumentando em ambos os lados. Os exportadores brasileiros estão perdendo o mercado russo — não porque querem, mas porque os bancos estão recusando. Os importadores russos estão pagando mais por intermediários. Ambas as partes estão interessadas em que a infraestrutura de pagamento funcione diretamente.
Kazanforum é um dos poucos locais onde essas questões são discutidas substantivamente e não declarativamente. Acompanhar os documentos finais do fórum e os memorandos assinados em suas margens é uma maneira direta de entender em que direção os cálculos estão se movendo.